Parar de pedir desculpa pelos seus textos

Olha, eu escrevi, mas acho que ainda pode melhorar

Eu escuto muito isso. Eu digo muito mais do que gostaria de admitir. Frases como esta permeiam minha vida profissional há quase 20 anos. Toda vez que alguém me entrega algum texto para eu ler ~ seja como revisora, como professora ou mesmo como amiga, costumo escutar frases assim. A maior parte das vezes, dita por mulheres. Algumas vezes, quando vou apresentar um texto para alguém, também digo isso.

Mulher sentada no chão, cabeça apoiada nos joelhos, escondendo o rosto, dentro de um armário, com as portas abertas.
Mostra o texto e vai se esconder. Image by Elyas Pasban, Unsplash

Por que nos colocamos nesse lugar de pedir licença para falar, para pensar? Entre as mil e uma pesquisas que já deve haver nessa área, aqui, na conversa, o que me vêm à mente é que há um medo de ser julgada, de ser silenciada. A escrita, para as mulheres, não foi autorizada ~ dependendo da classe social e da cor, então, não só não era autorizada, como era impedida de todas as formas possíveis. Virginia Woolf e Gloria Anzaldúa trazem isso de maneira visceral, cada uma a seu modo.




Não está tão poético, não está tão claro, não está tão bonito

Olhamos para o que crermos faltar no texto. E nosso olhar parece se apegar aos “buracos”, aos “vazios”. Tenho a impressão de que, se fosse uma corrida, seriam textos que quase alcançaram a chegada. Textos do quase. Será? Será mesmo que estes textos todos eram “quase”?


A impressão é de que, ali, poderiam estar estampamos nossos medos, nossos “erros”, nossos fantasmas. Como se, no movimento de expor um texto, ouvíssemos as vozes dos nossos carrascos, dos nossos juízes internos. Eu não sei vocês, mas quantas vezes, naquele exato momento de entrega de um texto, eu sou capaz de imaginar a feição do leitor balançando a cabeça e reprovando cada uma das minhas suadas linhas. Mesmo quando, na escrita, o juiz não tenha aparecido, no instante da entrega, ele estava lá.


O que ganha esse juiz (interno) ao alimentá-lo? Será que, ao torná-lo mais forte, ele nos permite escrever mais ou menos?


Ah, não ficou tão bom quanto eu gostaria

Outro movimento: a gente pega a régua do outro e coloca em nós mesmas, tornando “possível” usar uma balança para medir centímetros. Por que o outro precisa ser a referência para nosso texto? Nem nós mesmas podemos ser referência ~ os dias são tão diferentes entre si, nossa escrita muda tanto quanto nosso próprio humor. Não dá para esperar todos os textos iguais (ai, credo, não, né?).


O outro ~ outra pessoa, outro eu ~ pode até servir de inspiração: escutamos, lemos, ouvimos algo que nos move e nos faz escrever, mas sem esperar que nossos textos fiquem iguais. Não faz sentido.


Eu sei, eu também sinto a carne rasgar quando leio um texto que gostaria de ter escrito. E me pego me remoendo ~ por que não escrevi isso antes, eu nunca vou ser capaz etc. Ainda assim, a gente respira e segue para nossas próprias linhas.


Desculpa, ainda tenho que mexer no texto

Já falei em vários lugares nessas redes (aqui, aqui e aqui): escrita é processo. E nem é um só. Escrita são processos, no plural.

papel escrito à mão, com algumas palavras e letras rasuradas
Texto é movimento, são processos. Image by Micah Boswell, Unsplash

Muitas vezes, entregamos uma escrita inicial como se já fosse o texto final. Escrita também é reescrita, não é algo pronto. Não escrevemos mais na pedra, em que não era possível reescrever, ou nos papiros, que custavam uma fortuna. Por que pedir desculpa por textos que ainda estão em processo (ou por aqueles que já estão finalizados)?


Além disso, parece haver uma confusão de que revisão de texto (outro processo na escrita) é atestado de falta de conhecimento: pelo contrário, todo texto passa (ou poderia passar) por uma revisão. Lógico que há revisões e revisões, ainda escrevo ou gravo sobre isso. Uma vez, um colega revisor me trouxe uma imagem ótima: o revisor é o goleiro ~ que a gente só lembra quando deixa algo passar. No fim das contas, a revisão é parte de um processo que cuida para que seu texto fique claro e siga um padrão linguístico. Não precisamos nos ressentir quando nosso texto for revisado.


Outro ponto importante: um dos processos é o momento de aceitação do limite do texto ~ assim como nós, precisamos dar um fim à escrita e aceitar o texto como ficou, independentemente do quão satisfeita você está com ele ou não. Daí, apresentamos ao mundo e aceitamos. Nem todo mundo vai gostar, óbvio, mas, outra vez, por que precisamos que todos nos aceitem? Por que precisamos agradar toda audiência?


Eu não sei se você vai gostar, mas queria te mostrar

É incrível, porque saímos da escola, mas a escola não saiu da gente. Ainda carrego aquela vontade insuportável de deixar a professora satisfeita com meu “belo trabalho”. Isso destrói meus textos ~ começo a escrever para agradar ao outro e não para expressar o que pretendia.


(Uma observação: eu não acho que a gente não deva agradar ao leitor. Não é isso. É delicioso escrever de um jeito que o afete. Mas não eu não posso me perder em palavras que não são minhas. Só faz sentido uma escrita que move e não uma que mata.)


Boa parte dos textos que vieram depois dessas frases era incrível. Eram aqueles de tirar o ar. Me pergunto, então, por que textos fodas tão bons precisam pedir licença para passar? Por que não podemos simplesmente entrar, se apresentar, ser quem somos naquelas linhas?

Corpos e falas educados demais, tenho uma impressão. Pedidos de desculpas por aquilo que não precisa.


Eu escrevi um texto. E gostei demais dele.

Olha o susto que pode ser dizer isso. Já experimentou?


Qual o problema de gostar do que produzimos? Eu escrevo isso e já sofro ~ processos. Afirmar que gosto do meu texto não significa que o texto está pronto, nem que não precisa mexer (e, às vezes, não precisa mesmo). Também não significa que somos arrogantes e nos cremos as melhores escritoras do mundo.


“Só” significa que temos um carinho e nos afetamos por ele.


Aprender a amar a própria escrita ~ e seus inúmeros processos ~ pode ser um cuidado e um ato de amor a si mesmo.



Image by Hush Naidoo, Unsplash

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