A escrita das mulheres do século XXI – Breve discussão com Virginia Woolf


Virginia Woolf sitting in an armchair at Monk's House.

Termino de ler Um teto todo seu, de Virginia Woolf. Essa mulher me arrancou a carne. Não, Virginia enfiou um dedo sujo no machucado inflamado do meu dedo anelar direito que estava quase sarando.


Fui dormir pensando que ela estava errada: não precisamos mais das 500 libras por ano e nem de um teto só nosso para escrever. Quer dizer, lógico que precisamos. Mas não podemos esperar que tenhamos isso tudo para começar a escrever. Antes de fechar os olhos, fui pesquisar a biografia de uma ou outra escritora. Não pode ser possível que ela esteja certa.


Hoje, quando acordei, o dedo estava, novamente, infeccionado e o meu peito doía. Queria sentar e chorar, queria provar que seu pensamento não nos serve mais. Sinto que preciso dessa comprovação como uma justificativa, mas não encontro. Começo a perceber que, talvez, ela tivesse razão. Seguro os lábios e as lágrimas, porque, caso se confirme, sinto que eu perderia meu sonhado lugar na literatura.


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[Preciso respirar. Olho para meu contexto atual ~ e de outras tantas mulheres. Brasil, 2021 (ops, caiu meu band-aid enquanto escrevo e, agora, o machucado quer se encostar no papel). Voltando. Brasil, 2021, pandemia em seu pior momento, mulher, mãe solo, cuidando da casa, trabalhando home office.


Levanto e vou trocar o curativo.]

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Decido fazer um caminho parecido com a de sua personagem Mary Beton ~ pesquisar. Continuo a busca da noite passada sobre a biografia de autoras famosas: eram casadas? tiveram filhos? quando começaram a escrever? ou quando começaram a viver de sua escrita? Vou enlouquecendo. Das mas antigas às mais contemporâneas, a maioria não teve filhos. Daquelas que tiveram, boa parte começou a vida na literatura mais tarde. Uma ou outra conseguiu unir casa, filhos, maridos. Vou encolhendo.


Recorro a uma amiga. Preciso desse colo. Ela me lembra de matar o Anjo do Lar*. Tenho dificuldade em entender: como matar o Anjo e não abandonar os filhos? Como matar o Anjo e não escravizar outra mulher que cuide da casa para mim? Quero afirmar a potência desse lugar casa-mãe-vida doméstica sem ser oprimida por ele. Mas será que é possível? O que não estou entendendo?


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[Há três anos, eu encerrava meu livro dizendo de como nós, mulheres, produzimos no “entre” ~ entre o almoço e o lanche, entre uma mamada e outra, entre a roupa lavada e a preparação da janta. A mulher da banca do meu TCC, em que meu livro foi apresentado, se irritou: “você defende o lugar de uma mulher submissa”. Não. Eu não defendo. Eu aponto. Eu afirmo outro lugar dentro dele mesmo. É diferente.]

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Volto ao livro.


Virginia é genial. Ela não nos diz para não escrevermos. Ela não nos diz para descolarmos da realidade. Ao contrário: é a partir daí que ela recomenda nossa escrita. Seu texto nos prega uma peça [fui interrompida pela 3ª vez por uma criança e perco a linha de raciocínio]. Seu texto nos prega uma peça ao nos dar a impressão de que somente com uma porta trancada conseguiríamos escrever; entretanto, ao final do livro, percebemos que não é exatamente isso que ela está dizendo. Fico confusa.


Tudo me dói por dezenas de motivos.


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[A minha personagem abandonada no caderno. O quanto quero mostrar às minhas alunas que elas podem escrever, sim. A falta de perspectiva de independência financeira. O comentário distraído de quem não sabe elogiar sem fazer uma crítica junto. O cenário atual do país, sem um horizonte animador. A casa caótica, com quase tudo por fazer. A incapacidade de trancar a porta e se esquecer de que sou mãe. Um nível de auto exigência arrebatador: “ainda que tenha sonhado, você jamais alcançará esse lugar na literatura”.]

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[Como escrever ficção se preciso me levantar nesse momento e servir o almoço às crianças?]


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Por George Charles Beresford - Domínio público - Commons Wikimedia

[volto do almoço querendo escrever uma carta para Virginia]


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Querida Virginia

Talvez, eu precise ler seu livro mais algumas vezes.





Começo a carta, me irrito e desisto.


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[Não há somente as demandas da vida doméstica como interferência na escrita de uma mulher: há também os hormônios. Estou naquela fase do ciclo que, não importa o que eu produza, duvidarei de qualquer coisa vinda de mim.]

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Não chego a nenhum lugar diferente do que ela nos traz. Na verdade, continuo com o mesmo sentimento ambíguo do começo do texto: não consigo concordar com ela e, ao mesmo tempo, sei o quanto ela está correta.


Talvez, o desafio da mulher que escreve no século XXI, para além da desconstrução que temos feito acerca da divisão das tarefas domésticas e da criação dos filhos, seja afirmar a possibilidade de uma escrita a partir de lugares que, há 100 anos, seriam inimagináveis.


Escrever a partir da casa ~ para aquelas que sentirem ~, com suas demandas. Escrever a partir de si, não importando quão rica ou pobre somos. Escrever no lugar da possibilidade, afirmando todas as nossas angústias, limitações e potências.


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[não sei se foi a troca do curativo, a pomada, mas o dedo parou de latejar. até secou.]

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Engraçado. Acabo o texto com a sensação de que foi exatamente isso o que ela nos disse sobre as mulheres do nosso século. Parece, afinal, que Virginia estava, de certo modo, certa e de que há, sim, um lugar para nós na literatura, mesmo que não ganhemos 500 libras por ano e não tenhamos, ainda, um teto só nosso.



[P.S.: Apesar desse texto ter sido escrito por mim, Sofia, ele é resultado de muitos afetos que me passaram nos últimos dias. Para conseguir elaborar tudo isso, preciso dizer da importância de algumas mulheres que têm construído esses pensamentos comigo: as mulheres do Grupo de Estudos “Leia-NOS: mulheres, escritas e filosofias”, minha amiga querida Luciana Aguilar, minha irmã Bia Amorim, minha mãe Vera Cristina, a querida professora Adelia Nicolete e as minhas amadas alunas dos cursos do Travessias.]




* O “Anjo do Lar” seria uma sombra que, segundo Virginia, havia em todas as mulheres. Ela se refere a ele no livro Profissões para mulheres e outros artigos femininas: “E, quando eu estava escrevendo aquela resenha, descobri que, se fosse resenhar livros, ia ter de combater um certo fantasma. E o fantasma era uma mulher, e quando a conheci melhor, dei a ela o nome da heroína de um famoso poema, “O Anjo do Lar”. Era ela que costumava aparecer entre mim e o papel enquanto eu fazia as resenhas. Era ela que me incomodava, tomava meu tempo e me atormentava tanto que no fim matei essa mulher. Vocês, que são de uma geração mais jovem e mais feliz, talvez não tenham ouvido falar dela – talvez não saibam o que quero dizer com o Anjo do Lar. Vou tentar resumir. Ela era extremamente simpática. Imensamente encantadora. Totalmente altruísta. Excelente nas difíceis artes do convívio familiar. Sacrificava-se todos os dias. [...] E acima de tudo – nem preciso dizer – ela era pura. Sua pureza era tida como sua maior beleza – enrubescer era seu grande encanto. Naqueles dias – os últimos da rainha Vitória – toda casa tinha seu Anjo.

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