Escrever por prazer

Nós e os ideais. Ainda luto tanto com esses tensiosamentos. Alguns dias, acredito que os ideais nos ajudam a caminhar ~ ter um objetivo, um sonho, uma meta. Entretanto, na maior parte do tempo, percebo os ideais como máquinas de autotortura ~ ficamos nos debatendo por não sermos aquilo que idealizamos. Esse assunto dá pano pra manga, mas hoje me só me aproximarei, só pegarei uma beirada no tema.


Eu tenho escrito e falado bastante sobre o problema de idealizar a escrita e o escritor (alguns textos do blog, aqui, aqui e aqui, e um vídeo do canal do Travessias no Youtube, aqui, se aproximam desse tema). Falo e escrevo muito porque, todos os dias, me deparo com esses ideais afundando pessoas incríveis com textos excelentes ~ “não sei escrever”, “escrevo mal”, “os meus textos são muito assim (= qualquer coisa que o diminua)”.


Engana-se quem acredita que os escritores têm uma relação prazerosa com sua produção. A grande maioria não tem: escreve por não saber fazer outra coisa, escreve por gostar do trabalho, escreve por ser o único modo de dar vazão a uma imensidão de pensamentos e sentimentos que lhe toma. Há tantos motivos para escrever quanto insetos nesse planeta.


Talvez, o prazer pela escrita esteja em um momento ~ conseguir dar voz aos afetos que passam. Talvez, não esteja aí. Não existe algo universal, algo como “todo escritor sente prazer pela escrita em tal momento” (olha a idealidade aqui, de novo). Além disso, esses momentos de catarse na escrita não são constantes, não são uma lei. Na maior parte das vezes, queremos escrever, ou precisamos escrever, e nos deparamos com a lida: “Lutar com palavras/É a luta mais vã.”, nos diz Drummond, “/Entanto lutamos/mal rompe a manhã./São muitas, eu pouco.”


Outro dia, ao escrever um prefácio para um livro de coletânea de textos de adolescentes, me veio uma imagem: escrever é como tirar as rodinhas da bicicleta e aprender a equilibrar-se, a confiar de que não iremos cair e, nos tombos, erguer-se para voltar a pedalar. Acostumamo-nos não a andar, acostumamo-nos, na verdade, com essa sensação de equilíbrio, a essa insegurança que alguns textos nos dão.


O prazer da escrita, talvez, esteja na alegria daquele momento do equilíbrio, das mãos soltas do guidão, mas, quase sempre, temos o mesmo trabalho no dia seguinte ~ tiramos as rodinhas a cada novo texto.


Ao contrário do imaginário popular, escrever dá muito trabalho. O texto não costuma vir

pronto ~ aqui, outra idealidade. A gente escreve. Apaga. Reescreve. Corta. Coloca mais texto. Corta de novo. Deixa no tempo, pra descansar. Faz uma releitura. Troca palavras. Lê em voz alta. Reorganiza. Às vezes, envia para outra pessoa ler e comentar. Sofre com os comentários e sugestões (algumas vezes). Agradece as alterações propostas. Escrever é uma palavra curta para um processo longo ~ e que poderia ser eterno. E esse processo que descrevi brevemente mostra só uma parte ~ muitas vezes, há um tempo de digestão, de elaboração do texto por vir. Indico três textos que mostram os manuscritos de autores famosos, para vocês verem essa escrita trabalhosa:

aqui, manuscritos de Machado de Assis; aqui, Moacyr Scliar; e aqui, uma coletânea incrível de diversos escritores.


Para alguns autores, é o processo da escrita que é prazeroso. Para outros, é deparar-se com o texto pronto. Alguns, por outro lado, nunca mais leem seus textos finalizados: o prazeroso é o começo. Assim como em todo lugar em que o prazer aparece, não existe uma receita, um único modo de gozar do que nos propomos ~ seja na escrita, na cama, na comida.

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