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História da escrita das mulheres

Hoje, vou contar uma história para vocês - uma, não, várias histórias que, reunidas, formam uma grande narrativa sobre como se deu a relação entre mulheres, escrita e publicações.


[Eu tinha começado esse texto de outro jeito, mais formal, mas lembrei que esse é um blog e não preciso de uma linguagem tão certinha.]


O que quero trazer hoje é uma pincelada de tudo o que estudei e defendi recentemente na

minha pesquisa de Mestrado: a história da escrita da mulheres. Assim como Virginia Woolf, eu sempre me perguntei onde estavam as mulheres da literatura, inconformada com a falta de informações. E o que descobri, na verdade, me ajudou muito a compreender o modo como, hoje, nós lidamos com a escrita.


Carregamos conosco a impressão de que não houve muitas mulheres escritoras ao longo do séculos - mas, se pensarmos bem, isso não faz muito sentido: tanto que pesquisas recentes têm trazido à tona muitos nomes importantes de escritoras que marcaram sua época. Ainda assim, é preciso dizer: não foi exatamente fácil para as mulheres publicarem.


Eu começo essa história lá na Idade Média, época das "trevas", segundo as aulas que tivemos na escola. Apesar destes atributos, as mulheres, naquele tempo, tinham muito mais autonomia que aquelas que viveram séculos mais tarde: elas foram médicas, construtoras, filósofas, compositoras e escritoras. Algumas pesquisadoras, inclusive, apontam como havia mais mulheres educadas do que homens, pois estes estavam envolvidos em guerras. O primeiro romance da história foi escrito no ano 1000 d. C., no Japão, por uma mulher anônima que ficou conhecida como Murasaki Shikibu, nome da protagonista de sua obra.


Com advento do Capitalismo e o Renascimento, aos poucos, as mulheres foram encerradas à vida doméstica e proibidas de terem acesso ao conhecimento. Entre os séculos XII e XIV, temos poucas notícias de mulheres que conseguiram ultrapassar essa barreira, sabendo que boa parte delas foi morta durante a inquisição, na conhecida "caça às bruxas".


Com o movimento da Reforma, a chegada da religião protestante trouxe uma mudança: todas as pessoas, incluindo mulheres, deveriam aprender a ler para que pudessem compreender o que estava escrito na Bíblia. Ainda que proibidas de ler outros textos, isso fez com que muitas mulheres se aproximassem novamente de conhecimento e começassem a escrever. Apesar de o Iluminismo trazer boa parte de suas luzes apenas para os homens, é importante contar que durante essa época, especialmente no século XVIII, as mulheres se reuniam em salões, onde alguns deles eram dedicados às Artes e à literatura, algo que contribuiu muito para a história da escrita das mulheres. No entanto, será somente no século XIX, chamado de "século misógino" por algumas autoras, que as mulheres irão se consolidar como escritoras em boa parte do Globo Norte.


[Eu sei, acabo contando apenas a versão europeia da história. Gostaria de poder contar outras histórias além dessa parte do mundo - ainda chegarei lá]



No Brasil, as coisas se desenrolaram de modo mais lento. Se, do lado de lá da linha do Equador, já havia mulheres publicando desde os séculos XVI e XVII, por aqui, esse movimento só se iniciou no século XIX. Precisamos nos lembrar que éramos uma colônia portuguesa e isso dificultava as publicações, as quais só podiam acontecer com o selo da coroa. Também sabemos que a primeira prensa só chegou em nossas terras junto com a família real em março de 1808. Esses fatos fazem com que fosse ainda mais difícil encontrarmos escritoras brasileiras nos primeiros trezentos anos de nossa história.


Para que as mulheres realmente pudessem começar a publicar, foi preciso, primeiro, algum reconhecimento de que não éramos seres débeis e infantis. Um outro ponto importante tem a ver com a luta pelos direitos das mulheres, que começou no Iluminismo e tornou-se o movimento feminista no século XIX - estes movimentos trazem uma contribuição ímpar para as mulheres se afirmarem como escritoras. É preciso dizer que o movimento de consolidação das mulheres na escrita está intimamente ligado ao movimento feminista - os jornais e as revistas foram um meio de diálogo entre as feministas e a população e de reivindicação de nossos direitos. Nísia Floresta, a primeira mulher a publicar no Brasil, em 1832, foi uma defensora dos direitos das mulheres* e seu livro, justamente, chamava-se Direito das Mulheres e Injustiça dos Homens. Alguns anos depois, em 1859, Maria Firmina dos Reis pública o primeiro romance escrito por uma mulher no Brasil, Úrsula. No entanto, a autora foi apagada da história da literatura, mesmo com a relevância do seu trabalho para a época.



Foi preciso avançarmos no século XX e adquirirmos mais direitos para quem um maior número de mulheres escritoras publicassem suas obras. Ainda assim, a maioria das escritoras brasileiras não é estudada ou sequer citada pela história da literatura. Mesmo podendo publicar, as mulheres eram duramente criticadas pelos teóricos e críticos da época, tendo seus nomes apagados dessa história. Foi somente no final do século XX, com a articulação de diversas pesquisadoras brasileiras, que começamos a ter acesso às escritoras invisibilizadas pelos homens do passado.


Foto em PB, mulher escrevendo
Imagem de Art_Photo

Quando, hoje em dia, passeamos pelas livrarias, nos deparamos com um grande número de mulheres publicando. Já não temos leis que nos proíbem, mesmo assim, esse continua sendo um universo dos homens: ainda são os homens publicam mais, seus livros são os mais premiados e boa parte da literatura produzida por nós é considerada de baixa qualidade pelo cânone. Ainda vivemos em uma sociedade misógina e machista, que continuamente duvida de nós e faz com que carregamos inseguranças com relação a nossa própria capacidade.


Por esse motivo, precisamos, cada vez mais, afirmar nossas escritas, encontrar lugares que valorizem o que produzimos, sem nos deixar abater pelos arautos do cânone, criando redes de apoio e troca, onde podemos legitimar nossos trabalhos.



* Não se pode dizer que ela era exatamente uma feminista, pois este termo ainda não existia em sua época.

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